segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Inclusão de E-books em bibliotecas: uma discussão necessária

Por Liliana Serra, matéria completa no  Revolução eBook

Os livros eletrônicos estão mudando radicalmente a realidade das bibliotecas e sua inclusão nos acervos deve ser pensada na forma de somar forças com o mercado editorial, garantindo a permanência dos negócios e cumprindo com sua função original de preservação de publicações e acesso ao público. As dificuldades encontradas são marcadas em parte pela indefinição de um modelo de gestão bibliotecário, que por sua vez, é impactado por uma grande diversidade de modelos de negócios estabelecidos pelo mercado editorial, comprometendo a aquisição e empréstimo digital. 
As bibliotecas tem enfrentado um grande desafio na transição entre o tradicional e o digital e isso acarreta em alterações e adaptações na gestão das unidades de informação. Com as mudanças nas relações de aquisição de conteúdo e sua disponibilização ao usuário é necessário repensar o desenvolvimento da coleção, de forma a garantir a continuidade de títulos nos acervos, mensurar o uso que é feito das obras adquiridas, aferir o controle de acesso aos conteúdos para evitar utilizações não autorizadas, além de oferecer novas possibilidades de consultas e serviços. 
O objetivo deste texto é apresentar uma reflexão sobre o advento do livro eletrônico (e-book) e a sua oferta nas bibliotecas, apresentando as dificuldades encontradas. Com o conhecimento deste cenário será possível aos agentes envolvidos estabelecer um modelo de negócios que satisfaça às necessidades e anseios, proporcionando a manutenção e crescimento dos envolvidos, construindo uma estratégia de atuação que favoreça todas as partes. 
O mercado de venda de e-books não está completamente alinhado com as demandas das bibliotecas. Apesar da variedade de modelos de negócios que estão em prática e discussão atualmente, o impacto destas mudanças não foi avaliado plenamente. Ao analisar as possibilidades de aquisição e acesso, observamos que algumas editoras impõem os modelos existentes, oferecendo pouco ou nenhum espaço para negociação. Apesar de serviços oferecidos por distribuidores, observa-se certa relutância em fornecer obras em formato digital. Esta motivação deriva do temor que as bibliotecas permitam o download indiscriminado dos arquivos e estes, uma vez em poder dos usuários, possam ser distribuídos livremente, caracterizando a pirataria. A posição de grupos de editores de recusarem-se a vender e-books para bibliotecas mediante o argumento que por ter a publicação acessível por um clique de forma gratuita, o leitor não comprará mais livros, é tão irreal quanto a afirmação que, por ter o livro impresso na biblioteca os consumidores não irão adquirir seus próprios exemplares. 
A prática demonstra que as bibliotecas sempre representaram bons clientes aos livreiros e editores exatamente por realizarem compras em larga escala com frequência, além do fato de ser um local de descoberta de publicações, ao permitir o conhecimento e contato das obras pertencentes aos acervos, o que favorece o aumento nas vendas. Dentre as restrições sugeridas consta o estabelecimento de uma quantidade máxima de acessos que um e-book poderia ter na biblioteca e, depois de atingida esta marca, a instituição deveria comprar um novo exemplar ou renovar a licença de uso. O número de acessos de empréstimos digitais possíveis seria um valor alcançado através de cálculo de média de empréstimos realizados em livros impressos atrelados a durabilidade do papel e a expectativa de vida útil de um livro tradicional. Este argumento não tem aderência nas bibliotecas, pois o consumo e a durabilidade de um exemplar físico são determinados por diversos fatores como qualidade do papel, manipulação correta e frequência de utilização dos usuários, não sendo possível definir um número específico de empréstimos para determinar a durabilidade do exemplar. Num primeiro momento, apenas os títulos com maior vendagem são oferecidos no formato digital, uma vez que estas obras atingem marcas expressivas de comercialização. As publicações nascidas no ambiente digital são oferecidas com maior frequência, porém o mesmo não é visto com regularidade nos títulos antigos. 
Observa-se também uma grande variação de preços, seguido de restrições de uso ou até mesmo a política de não vender e-books para bibliotecas. Enquanto cada fornecedor oferece um modelo de negócios, as bibliotecas, por outro lado, vem negociando para obter condições favoráveis e flexíveis. 
Os modelos de negócios apresentam restrições, a saber: o acesso individual ou múltiplo, ou seja, sem ou com simultaneidade, impactando profundamente os valores dos contratos estabelecidos; número limitado de empréstimos eletrônicos, obrigando a instituição a adquirir nova licença de uso quando este número de empréstimos for alcançado; variação dos preços, com situações onde o exemplar impresso é mais barato que o digital; restrição de venda de lançamentos; obrigatoriedade que o empréstimo (check in / check out) seja realizado no espaço da biblioteca; acesso somente através de plataformas proprietárias e restrições de vendas para consórcios ou empréstimo entre bibliotecas. 
O mercado apresenta possibilidades de aquisição de conteúdos digitais para bibliotecas, porém observa-se que não existe uma regra para a comercialização. Com a diversidade de modalidades de aquisição (aquisição perpétua, assinatura, patron driven acquisition e short term loan – os dois últimos com pouca ou nenhuma aplicação no Brasil até o momento) e as variações inerentes a cada modalidade, as bibliotecas deverão ter um controle sobre como ofertar as obras a seus usuários de acordo com os processos aquisitivos definidos com cada fornecedor. 
Os e-books apresentam vantagens e desvantagens. Se por um lado eles permitem outras formas de ocupação do espaço antes destinado a guarda de volumes impressos, eles introduzem novos problemas, como a utilização de plataformas proprietárias para acessar as publicações adquiridas, limitações de números de downloads ou impressões e o próprio custo, visto que, analisando a aquisição individual de títulos, eles são comparativamente mais caros que as versões impressas. Pacotes de títulos oferecidos por assinatura são mais acessíveis, porém a quantidade de obras disponíveis nem sempre será proporcional à qualidade dos produtos ofertados.