domingo, 31 de março de 2013

O ocaso da Biblioteca Nacional


RIO - Na última terça-feira, a notícia da demissão do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, se não chegou a surpreender (Marta vinha realizando trocas nos órgãos do MinC desde setembro) serviu para chamar atenção para um problema que vem se arrastando há décadas na maior biblioteca da América Latina: a completa precariedade da sua estrutura. Mais importante do que investigar se a degradação do acervo que contempla toda a memória nacional agravou-se na gestão do escritor Galeno Amorim (2011-2013), do sociólogo Muniz Sodré (2006-2011) ou do bibliófilo Pedro Corrêa do Lago (2000-2005), só para citar os últimos presidentes da BN, é saber como o próximo gestor, o cientista político Renato Lessa, vai encarar os percalços que o esperam. Nas duas últimas semanas, a Revista O GLOBO acompanhou os bastidores da rotina da biblioteca. E pode garantir: não são poucos os problemas.
— A Biblioteca Nacional parou no tempo. Do jeito que está, vai perder completamente sua função — lamenta o economista, engenheiro e advogado José Roberto Fiorêncio, que se aposentou há um ano do emprego no BNDES e desde então frequenta a biblioteca diariamente, das 9h às 19h, para pesquisas de interesse pessoal, que vão dos recursos hídricos da Amazônia às teorias do filósofo alemão Karl Jaspers. — Em outros países do mundo, a dinâmica dos moradores com suas bibliotecas é muito mais rica. Esta aqui virou um museu, onde o turista, no máximo, conhece numa visita guiada. E nunca mais volta. Os próprios moradores da cidade a ignoram. Ela não faz parte da vida do brasileiro. Não há link com as escolas, não são vistos estudantes por aqui. É irônico que a BN chegue a esse ponto justamente no ano em que representará o Brasil na maior e mais moderna feira de livros do mundo (o Brasil é o país homenageado deste ano na Feira de Frankfurt, na Alemanha).
O público que vive a Biblioteca Nacional é variado. Há pesquisadores de ocasião, como José Roberto, cientistas de ponta, graduandos, turistas, leitores de fim de tarde (muitos), vestibulandos, malucos-beleza, estudantes do ensino básico e do fundamental (poucos), intelectuais estrangeiros, curiosos e até moradores de rua. Todos atravessam dificuldades para usufruir o acervo da biblioteca, a oitava maior do mundo. Os problemas dão as caras logo na entrada do prédio histórico, datado de 1910. Desde outubro do ano passado, a suntuosa fachada da instituição, localizada na Cinelândia, no Centro do Rio, está escondida por estruturas de alumínio. A medida emergencial é para evitar que rebocos do edifício malconservado acertem a cabeça de um passante, como quase aconteceu em outubro, quando um naco da fachada, do tamanho de uma bisnaga, despencou do alto.
Os problemas seguem biblioteca adentro. Chegando à recepção, os “usuários”, como são chamados no jargão bibliotecário, apresentam um documento de identificação, deixam os pertences num guarda-volumes e passam por catracas de segurança, que deveriam controlar a entrada e saída do prédio. Quebradas há mais de um ano, no entanto, as peças têm efeito meramente cênico. Não registram nada.
De lá, o frequentador segue até o setor que lhe convém: periódicos, obras gerais, iconografia, cartografia, manuscritos ou obras raras. Com o ar-condicionado inoperante desde maio de 2012, quando houve o rompimento de uma tubulação do aparelho central (incidente que obrigou bibliotecários a suspender as barras das calças e empunhar rodos para salvar o acervo de um alagamento), o calor é a sensação primeira, e premente, nos salões da biblioteca.
A sala de leitura da Biblioteca Nacional, com um aviso para os usuários sobre limitações de estrutura Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
A dica é frequentar a instituição pela manhã. À tarde, o sol incide diretamente nas claraboias do edifício, transformando os salões de leitura numa estufa. O setor de obras raras foi apelidado de “micro-ondas” pelos leitores. Os ventiladores improvisados , alguns levados de casa pelos próprios funcionários, não dão conta.
— Gosto de calor, mas sou italiano — justifica o diretor do Instituto de Estudos Românicos da Itália, Archimedes Muzi, que todo ano passa um mês no Rio para fazer pesquisas no acervo da biblioteca. — Mas é claro que falo isso de brincadeira. Este calor é extremamente nocivo para documentos históricos. Veja só como este livro já está todo enrugado (aponta o volume sobre o qual está debruçado, do século XVIII). Este acervo já deve estar todo comprometido. É uma situação inacreditável manter uma biblioteca como esta fora dos padrões de climatização (o ideal, segundo as normas, seria manter o ambiente a 22 graus Celsius).
Na tarde do dia 19 de março, uma terça-feira, Archimede fazia pesquisas no setor de iconografia. Sobre a mesa, seu computador estava conectado a uma tomada da parede. Seria uma cena corriqueira em qualquer biblioteca do mundo, menos na brasileira: aqui, pesquisadores não podem usar as tomadas para carregar seus equipamentos. Se os tablets, computadores ou celulares descarregarem, paciência. O jeito é pedir para uma das mocinhas da recepção carregarem “rapidinho, sem ninguém ver”. Ou caminhar até o metrô Cinelândia e espetar o aparelho nalguma tomada livre da estação. Ou voltar para casa. O aviso está em todas as portas da biblioteca: a medida é para não sobrecarregar a rede elétrica já comprometida. Ainda mais agora, com tantos ventiladores ligados (são cerca de dez aparelhos por salão). Para conquistar o direito, Archimede teve de pedir uma autorização especial, com o argumento de que frequenta a instituição brasileira há mais de 30 anos.
— Você já esteve na Biblioteca Nacional de Paris? De Roma? Lá o ambiente é construído para atrair o pesquisador, para tornar sua experiência produtiva. Penso que tomadas para carregar os equipamentos de trabalho são o mínimo. Ora, quem vai querer ficar estudando dessa maneira aqui dentro? — reclama o italiano.
Archimede não imaginava que a situação pudesse piorar. Três dias depois, em 22 de março, os bebedouros foram retirados para manutenção. Se já morriam de calor, os frequentadores agora não têm nem mais onde beber água.
— Às vezes, eu me pego pensando: qual o sentido de alguém sair de casa no calor e ficar enfurnado aqui lendo um livro? Pelo preço da passagem de ônibus, o leitor compra um livro de bolso na banca de jornal e lê em casa — admite uma funcionária do setor de pesquisa à distância, que prefere não se identificar (a Biblioteca Nacional atende a pesquisadores de todo o Brasil e do exterior, que fazem pedidos por e-mail ou telefone).
A funcionária (que no último mês juntou-se aos colegas do setor numa “vaquinha” de R$ 1, cada, para a compra de um mouse) parece ter razão. Se a estrutura precária, que inclui ar-condicionado quebrado, sistema elétrico e de combate a incêndio defasados, má conservação do edifício e dos equipamentos de segurança, é, hoje, o principal problema enfrentado pela Biblioteca Nacional, a queda do número de leitores surge, consequentemente, como outro drama da instituição. Segundo a Associação dos Servidores da Biblioteca Nacional, a baixa no número de frequentadores, desde a quebra do ar-condicionado, é de mais de 30%.
É só passar algumas horas na biblioteca para notar os amplos salões vazios. Há setores, como os de referência e cartografia, que passam dias sem receber vivalma. A queda da frequência, no entanto, é contestada pela instituição. De acordo com dados atuais da BN, 736 mil pessoas estiveram lá em 2011 e 755 mil em 2012, uma média de dois mil usuários por dia.
No setor de periódicos, os problemas estão jogados pelo salão. Há 20 computadores novinhos, desligados, tomando poeira, diante de máquinas de microfilmes que funcionam a manivela. Os ventiladores dividem o chão com as caixas de livros amontoadas por falta de espaço nos armazéns do edifício.
— Frequento a BN há 12 anos. Nunca vi a casa numa situação tão precária — diz o historiador Eduardo Cavalcanti, que pesquisa a construção do racismo no futebol. — Muitas vezes eu não pude ter acesso aos microfilmes por causa do calor. Sob altas temperaturas, eles podem “avinagrar”, ou seja, colar nas lentes, sendo danificados para sempre. E a pesquisa fica parada.
Colega de Eduardo nas máquinas de microfilmes, o escritor Marco Aurélio Barroso, de 67 anos, frequenta a instituição diariamente desde 1999. A pesquisa no acervo já gerou três livros, entre eles, a biografia do cantor Nelson Gonçalves, “A revolta do boêmio”, em 2002. A recarga do seu laptop ele faz num restaurante, quando sai para almoçar. Marco é incisivo nas críticas.
— Há dois problemas principais na biblioteca: a falta de conservação do acervo e uma sequência de diretores que vem de fora e não conhece a instituição. Por isso, ela chegou ao ponto em que está. Eu estou aqui todos os dias e nunca vi um diretor descer do gabinete para conversar com os pesquisadores — lamenta Marco Aurélio, que atualmente faz uma varredura em periódicos de 1910 aos dias atuais para um novo livro, o que o fez constatar que muitas edições de jornais importantes das décadas de 1930 e 1940 já estão perdidos.
A lista de pesquisas atravancadas pelas péssimas condições do acervo é extensa. Doutoranda em Ciências Culturais da Universidade Livre de Berlim, a alemã Christina Peters, de 32 anos, passou três períodos da sua pós-graduação mergulhada nos documentos da BN. Não conseguiu concluir o trabalho.
— Não é possível copiar ou escanear a partir dos microfilmes, como é na Unicamp. Também não podemos tirar fotos, como no Arquivo do Estado de São Paulo. Para reprodução do material antigo, temos que pagar R$ 4 por página, e o pedido é lento e burocrático — detalha Christina.
Nem precisa ser íntimo das estantes da Cinelândia para criticar a instituição. Na última segunda-feira, o estudante de Desenho Industrial Thiago Crespo, de 24 anos, foi à BN pela primeira vez. Para concluir sua monografia sobre design automotivo, buscava revistas de transportes dos anos 60. Encontrou o que queria, só não conseguiu ficar debruçado sobre os volumes, copiando desenhos a lápis (é proibido usar caneta).
— É impossível com esse calor.
Do outro lado do salão dos periódicos, está o de obras gerais. É onde os usuários encontram os mais diversos títulos. Há uma senhora que todas as sextas-feiras consulta manuais de bruxaria. Um leitor que só pede Agatha Christie. O cantor e compositor underground Rogério Skylab pode ser visto lá pelo menos uma vez por semana, desde os 17 anos. E foi naquele salão que o poeta Carlos Drummond de Andrade apossou-se da mesa 4 para fazer suas leituras diárias.
Apenas quatro computadores, de um total de 20, servem aos leitores que querem encontrar as obras no sistema de dados da instituição. Nenhum com internet. Apesar de ter digitalizado boa parte do seu acervo de periódicos, inaugurando em agosto o projeto Hemeroteca Digital, a BN não tem rede wi-fi.
Se o estado geral da sede é desolador, mais ainda é o do chamado prédio anexo, um velho galpão, na Zona Portuária, que serve para guardar o que não cabe mais no prédio principal. Pela Lei do Depósito Legal, toda publicação brasileira deve ter um exemplar arquivado na BN. Por dia, chegam 150 livros. De jornais, do “Diário de Caratinga” à “Gazeta de Alagoas”, chega o equivalente a uma banca por dia. Vai tudo para o tal espaço, de 16 mil metros quadrados, que poderia ser usado como cenário de filmes de guerra, como se os jornais empilhados formassem trincheiras.
O local está sujeito a um desastre a qualquer momento. Não há saída de emergência, os telhados têm infiltrações, as janelas estão quebradas, e não há qualquer sistema de combate a incêndios. Em julho, parte do piso cedeu. Em outubro, houve um princípio de incêndio, amainado pelos próprios servidores. Eles comparam a falta de segurança do local à da boate Kiss, cenário do incêndio que vitimou 241 pessoas em janeiro. É nesse estado que estão estocadas coleções preciosas da BN, como a de histórias em quadrinhos — das mais completas do mundo.
— Com as obras do Porto Maravilha no entorno, o anexo virou uma ilha cercada de poeira por todos os lados — compara um dos funcionários, sem se identificar. — Manter tudo higienizado é enxugar gelo.
Entre os servidores, a insatisfação com a gestão de Galeno vinha desde a incorporação da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) pela Fundação Biblioteca Nacional, logo depois da sua posse. De acordo com os funcionários, a medida tirava o foco da administração da biblioteca. A crise apertou depois do acidente com o ar-condicionado, em maio. Houve a queda do reboco, em outubro, e a paralisação dos funcionários, para pleitear melhorias das condições de trabalho, em janeiro. No último dia 22, duas servidoras apresentaram cartas de demissão com fortes críticas à gestão do presidente.
No dia em que foi demitido, Galeno Amorim deixou com Marta Suplicy um relatório que batizou de “BN+200”. No documento, reconhece a série de problemas enfrentados durante sua gestão, exalta os feitos (como a ampliação do acervo digitalizado) e aponta o caminho que deve ser tomado pelo próximo gestor, com prazos que vão de 2014 a 2022. Na lista de desafios, iniciar as reformas para transformar o anexo num local adequado para guardar 80% do acervo da BN e reestruturar completamente o prédio-sede. Para isso, a ministra da Cultura já havia anunciado, em setembro, a liberação de R$ 70 milhões do BNDES.
— A Biblioteca Nacional precisa de uma intervenção forte. Não bastam ações pontuais. Só agora, por exemplo, foram feitos os testes finais para pôr em funcionamento o sistema wi-fi e instalar o primeiro data center da história da instituição. Acaba este mês o projeto executivo para toda a reforma elétrica do prédio. Vi isso de início e iniciei os procedimentos necessários para mudar o quadro. Os resultados aparecerão — declarou Galeno, logo após ser afastado do cargo.
É esperar para ver.


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