segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O bibliófilo eletrônico




  briquet de lemos  Por Briquet de Lemos: 
Bibliófilo eletrônico. É assim que gostaria de ser chamado. Alguns adotam o jeito e a pronúncia anglo-lusitana e sintetizam para e-bibliófilo em que o e de eletrônico é dito i. Não importa. Qualquer que seja o nome, o fato é que sou um amante, um aficcionado, um incorrigível adorador dessa que foi a maior invenção de todos os tempos: o livro eletrônico em seus diferentes formatos. Além de tudo sou um colecionador dos suportes e maquininhas que foram criados, principalmente a partir de 2020, para registrar as criações da mente humana. Sempre que posso, percorro, em êxtase, minha coleção, e não posso passar sem o diário contato com o mais recente apetrecho, que me permite delirantes fantasias em matéria de interação com uma máquina que falta pouco para se tornar realmente inteligente e totalmente ergonômica, para não dizer sensual. Não estou me referindo ao conteúdo, mas ao continente com suas possibilidades de experiências inéditas e prazerosas.

O livro com que agora me deleito pode ser ajustado ao tamanho que for mais conveniente para o leitor. Seu chassi é feito de nanotubos de carbono, que, com o calor do corpo, a ele se amolda, em gozosa intimidade. Feito um relógio mole de Dalí. Filho da tecnologia quântica, não possui partes móveis nem destacáveis e a interação comigo se faz por comando de voz ou de pestanejar: basta um comando verbal ou determinadas e simples seqüências de piscadelas para que as páginas sejam mudadas ou que se ative o mais avançado e flexível sistema de hipertexto e multimídia. É a energia de meu corpo (energia osmótica) que o alimenta, e está codificado para reconhecer somente os impulsos energéticos de meu corpo, o que me garante segurança e privacidade. 

Disponho de ligação sem fio com a rede universal que faz anos substituiu aquele vazadouro de lixo em que acabou se transformando a internet: a cosmonet, que me fornece informações em tempo real e me conecta com outros aparelhos iguais a este.

Além de poder ler o texto numa tela que capta a sensibilidade e o grau de cansaço de minha visão, de modo a se ajustar ao máximo de conforto por mim exigido, há anos que os livros eletrônicos oferecem a funcionalidade de geração de voz a partir do reconhecimento óptico do texto impresso. Uma de minhas paixões atuais é ouvir algumas das grandes obras literárias narradas por grandes atrizes de tempos idos. Outro dia era a voz sintetizada de Marylin Monroe que me lia as peças de teatro de Nelson Rodrigues. Disseram-me que há um sítio na cosmonet onde se encontram as vozes sampleadas de personagens de diferentes épocas e que elas podem ser instaladas em seu livro eletrônico e usadas para ler o texto que você quiser. Imagine você ter a biografia da Isadora Duncan lida pela voz da própria.

Mas estou me desviando da paixão principal de colecionador, que me levou recentemente a ser admitido como sócio integral da Sociedade Internacional de Bibliófilos da Era Eletrônica, em reconhecimento à seriedade de minha atuação nesse setor do colecionismo e por ter podido reunir um dos mais completos e valiosos acervos de livros eletrônicos. Tenho aqui muitas preciosidades. A primeira digitalização de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ainda em suporte digital, e cuja curiosidade maior era oferecer alguns extras, como a versão manuscrita do texto original, com as correções à mão feitas pelo autor. Ali se diz que esse manuscrito pertencera a importante colecionador das versões primitivas do livro. Algo a conferir. Mas não posso mostrá-la a meus amigos e visitantes porque há o risco de se perder a informação por causa da precariedade do processo que era usado na época para gravar os discos. Na realidade, dizia-se queimar o disco, verbo que me parece mais apropriado tal era a rudimentariedade do processo se comparado com o que hoje se emprega.

Recentemente comecei um trabalho de arqueólogo. Ocupo-me agora de pesquisas nas profundidades esquecidas de trilhões de páginas que ficaram congeladas no cemitério da extinta internet. No curso dessas pesquisas, procuro localizar obras que permaneceram perdidas, que jamais foram lidas, versões inacreditáveis de textos conhecidos, variantes profanas dos mais sagrados textos, iconoclastias e heresias inimagináveis, um oceano subterrâneo de criações sublimes ou demoníacas do espírito humano.

Ao me deparar com algo desse gênero, sempre cuido de averiguar se alguém o teria encontrado antes. Quais os registros que existem, quais os vestígios deixados para nós, arqueólogos dessa cultura perdida do universo virtual.

Tudo isso me deixa muito contente. Sei que sou o único e feliz possuidor do caminho que leva a essas criações e, portanto, detenho, de fato, a posse delas. Mas, é claro, posso negociá-las, vendendo o conhecimento dos caminhos, melhor dizendo dos descaminhos que nos levam até elas. De muitas gerei cópias legíveis nos equipamentos de hoje. Às vezes, dedico-me longamente a trabalhar no projeto visual de uma delas, que escolho para dar de presente à mulher por quem esteja apaixonado. Zelo com muita cautela pela preservação do texto, mas me esbaldo com a liberdade na criação de um design único da obra. Outro dia, por exemplo, gerei em formato multimídia a história de Poe intitulada O poço e o pêndulo. Associei a imagens de filmes antiquíssimos o texto original narrado em vários idiomas que se mesclavam numa interlíngua cacofônica e musical. E o texto se desdobrava não nas páginas de um livro, mas nas paredes de um poço que se perdia numa escuridão infinita. Disseram-me que era uma espécie de buraco negro da leitura.

Ignoro até onde me levará essa devoção, a adoração por esse objeto, por esse fetiche, que, admito, me condiciona a vida, enviesa-me a percepção das coisas, afasta-me da presença dos seres humanos. Mas sei que nada de melhor existe do que a experiência que sinto cada vez que percorro aquela lista imensa de títulos, que os ordeno e reordeno de diferentes formas, e me ponho quase em delírio diante das possibilidades infinitas de leitura. Misturar, em coquetel psicodélico, trechos de autores diferentes, enxertar uns personagens nos outros, alterar desfechos, inverter sentidos.

Não sei se hoje estarei a ler sozinho ou se me sintonizo com outros que estejam em lugares imprevisíveis lendo o mesmo texto que eu, e, assim, em gentil comunhão de prazer, troquemos conhecimento e experiência. Outro dia, estive a interagir com uma bibliófila eletrônica que não só lia Madame Bovary, mas se considerava a reencarnação dela. Espetacular.

Agora, quando não posso eludir a possibilidade do encontro com meu fim, assola-me a angústia que, tenho certeza, assolou os colecionadores de todos os tempos: a quem legar o que reuni. Confesso que, diante da indiferença das novas gerações com a reunião inútil e sem sentido de tanta velharia, tenho vontade de deletar tudo. Apagar os roteiros que me levam às obras perdidas nas catacumbas do mundo virtual. Destruir os inúmeros tipos e formatos de livros eletrônicos. Fazer um auto-de-fé de tudo. Pois também nisso pode haver parentesco entre o livro de hoje e o de antigamente. O parentesco dos genes que levam à criação e à destruição, ao amor e ao ódio, à tolerância e ao radicalismo excludente.

© 2005 Briquet de Lemos