quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ler para quê?


Ler para quê? Essa indagação parece estar implícita nos olhos daqueles que observam os amantes da leitura. Como entender essas criaturas que andam com livros nas mãos, na bolsa, no carro, na mochila, que conseguem ler enquanto esperam na fila, na sala de espera de algum consultório, no ônibus, no metrô, em meio ao barulho das conversas, das risadas, das músicas diversas que tocam nos celulares? Como explicar a atração que a vitrine de uma livraria exerce sobre esses seres, fazendo com que eles adentrem no estabelecimento olhando os livros como se os estivessem vendo pela primeira vez, tocando, folheando, respirando o ar impregnado de celulose e letras, cheio de promessas e imaginação e lá passando horas preciosas que poderiam estar sendo utilizadas em outra atividade?

E como esclarecer a expressão de prazer que se estampa em seus rostos quando se deparam com um semelhante, frente a frente, como num espelho, e descobrem as leituras em comum, discutindo-as em todas as suas nuanças até a exaustão, que parece nunca chegar (e nunca chega mesmo)? Como colocar em palavras a emoção de ouvir “O Cajueiro” de Rubem Braga sendo recitado, e sentir que o tempo passado é algo tão relativo quando o olhamos de frente?

Não sei se eu poderia responder isso sem parecer tendenciosa, visto que eu também sou uma dessas criaturas. Sim, confesso e proclamo minha dependência da leitura. Confesso que só durmo com um livro à cabeceira, mesmo em viagens, nos quartos de hotel, e raras são as noites em que adormeço sem que meus olhos passeiem por suas páginas até que o cansaço comece a trocar a ordem das letras.

Confesso que não passo um mês sequer sem adquirir novos livros, e por vezes compro até mesmo os que já li, pelo prazer de tê-los por perto quando tiver vontade de voltar ao seu mundo. Confesso ainda que já não tenho mais espaço nas prateleiras e se isso é uma angústia que me consome é, concomitantemente, uma alegria imensa porque me sinto completa e absolutamente cercada de amigos a quem posso recorrer a qualquer instante. Também confesso que já tirei nota baixa na faculdade por não consegui parar de ler uma boa história e estudar e que já abandonei outras por não conseguir encontrar nelas o viscomístico que prende o leitor.

Volto à pergunta do início: então, para quê ler? Para aprender, para conhecer, para entreter, são as respostas mais comuns. Mas lê-se também para despistar a saudade, para esquecer a ausência, para afastar a solidão, para sentir-se vivo, para enxergar pelos olhos do outro, para compartilhar momentos, para dividir aflições, para deslumbrar-se. Lê-se para entregar-se plenamente ao encantamento lírico da linguagem, para ser arrebatado de corpo e alma para além do seu universo. Lê-se para si e para os outros, em silêncio ou em voz alta, para deleite ou passatempo, lê-se,enfim, para tornar a vida mais poética.